Um mundo em transição e um país em transe

 

 


por Luís Nassif


Há um mundo em transição, com o fim gradativo das diversas formas de
articulação do poder da potência maior: os Estados Unidos. O Brasil
entra no jogo com inúmeras possibilidades e enormes riscos, já que é uma
Nação fraturada.

De um lado, tem-se o governo Lula, empenhado na reconstrução
institucional do país, mas com as bolas de ferro do orçamento loteado e
das políticas monetária e fiscal impedindo qualquer vôo maior. E sem um
projeto claro do novo país a ser desenhado.

De outro, tem-se uma elite e uma mídia que perderam completamente a
noção de país. Até os anos 90 era possível encontrar empresários com o
objetivo de serem grandes em um país grande. A financeirização da
economia e internacionalização do capital transformaram a acumulação
financeira em objetivo maior. É um jogo no qual as empresas –
especialmente as estratégicas, privatizadas – são tratadas como vacas
leiteiras, com a única função de gerar mais e mais dividendos, à custa
do sacrifício dos investimentos em inovação, segurança e crescimento. E
deixando de lado qualquer preocupação em relação à sua função
estratégica. Agora, são investidores do mundo.

Há um esforço individual do MDIC-BNDES, da Fazenda, do Planejamento, do
MCTI em montar alguma forma de articulação do desenvolvimento


Mas, por trás de tudo, há o fantasma das metas inflacionárias, uma
excrescência que subordinou totalmente o país aos movimentos do dólar.

Celebra-se, no Banco Central, a política bem sucedida de domar os
movimentos especulativos do dólar. Os resultados estão na desaceleração
pontual da inflação, dos bens de consumo aos índices de preços no
atacado e do consumidor, uma vitória de Pirro, que dará alguns meses a
mais de oxigênio à política econômica, mas não resolve a questão central
do desenvolvimento. 

O modelo de metas inflacionárias e o livre fluxo de capitais amarraram 
totalmente a possibilidade de um projeto de desenvolvimento.

Deixa-se o câmbio livre, pressionam-se os preços e vende-se a ideia de
que apenas elevação de juros segura a inflação.

A elevação de juros aumenta a relação dívida/PIB, com reações das
agências de rating, obrigando a mais elevação de juros. É mais do que a
maldição de Sísifo, porque cada rodada amplia o sufoco orçamentário e a
transferência de renda para o investimento financeiro.

Ao contrário de outros tempos, o aumento dos lucros não leva ao aumento
de investimentos. É mera acumulação de riquezas utilizada para
arbitragem de taxas e de ativos. Toda a cobertura midiática insiste em
não diferenciar o capital financeiro do capital produtivo. E toda a
lógica cambial tem como foco exclusivamente o capital financeiro.

O resultado é trágico, porque essa máquina de gerar lucros estéreis tem
como epicentro o financiamento da dívida pública. E as soluções de
sempre são jogar com o terrorismo fiscal para investir contra Fundeb,
Benefícios de Prestação Continuada e outros programas sociais, que
tornam minimamente palatável um modelo de capitalismo predatório.

Qualquer tentativa de distribuir migalhas do orçamento para os mais
vulneráveis – ou para políticas estruturantes, como educação, saúde – é
taxada de “populismo eleitoral” por uma mídia parcial e terrivelmente
ignorante.

Com esse jogo do dólar, em vez de investir na ampliação da produção,
multinacionais trocam  investimento direto por empréstimos matriz-
filial, para jogar exclusivamente com arbitragem de taxas de juros e
câmbio. A volatilidade do câmbio impede qualquer aumento expressivo do
investimento externo na produção, pela dificuldade em estimar a taxa de
retorno – já que cada solavanco no câmbio impacta mais os resultados do
que a rentabilidade do negócio, em reais. E o lucro das empresas
nacionais, em vez de buscar o investimento, busca os ganhos de tesouraria.

Por outro lado, é um enorme desafio mudar o modelo.

A estratégia atual consistiria em administrar as limitações do modelo
monetário-fiscal, enquanto se prepara o novo tempo, de transição para
uma nova ordem mundial, para moedas alternativas ao dólar e para
parcerias produtivas com novas potências. 

.O desafio consiste em responder às seguintes questões:

  * Como estabelecer limites ao livre fluxo de capitais?
  * Como desestimular a distribuição alucinada de dividendos, induzindo
    as empresas a aplicar os lucros na produção.
  * Como reduzir a influência deletéria da volatilidade do dólar nos
    preços e nas decisões de investimento.

Por outro lado, há pontos essenciais para se chegar aos novos tempos:

  * Quais serão as condições de parceria com a China, já que o
    aprofundamento das relações comerciais poderá levar à destruição do
    que resta de indústrias no país?
  * Como aproveitar o potencial de terras raras e de minérios, para
    beneficiamento interno e criação de linhas de industrialização
    internas e fugir da sina de ser mero exportador de commodities?
  * Quais as exigências para as multinacionais que irão transferir suas
    empresas para o país, aproveitando o potencial de energia verde?
    Quais as garantias de que haverá transferência de tecnologia, joint-
    ventures com capital nacional, criação de redes de fornecedores
    nacionais, definição de conteúdo nacional?

Enfim, o país terá que se envolver em uma grande discussão, com os
centros de inteligência do governo, da academia, das associações
privadas e dos movimentos sociais, para responder ao grande desafio:
este país ainda há de cumprir seu ideal, ou se conformará em ser apenas
a reprodução digital de um grande cafezal?

Em
JORNAL GGN
https://jornalggn.com.br/coluna-economica/um-mundo-em-transicao-e-um-pais-em-transe-por-luis-nassif/
10/6/2025

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