PCB e o trabalho clandestino nas fábricas (1)

 

19 de maio de 2025

Imagem: Lucio Bellentani fichado pelo DOPS em 1972 (Foto: Reprodução)

Edmilson Costa – é doutor em economia pela Unicamp e Secretário Geral do
PCB.

Esse trabalho de pesquisa está dividido em duas partes: na primeira,
abordamos o esforço teórico dos dirigentes do Partido Comunista
Brasileiro (PCB) com o objetivo de elaborar uma linha política para a
construção do Partido nas grandes empresas (tarefa histórica perseguida
pelo PCB ao longo de décadas), justamente no momento em que se
desenvolvia a indústria automobilística e metalúrgica no ABC paulista.
Na segunda parte, analisaremos em detalhes como o Partido conseguiu,
pacientemente, realizar um trabalho de base cujo resultado foi a
estruturação de dezenas de células clandestinas nas principais empresas
da região, trabalho que começou a ser destruído pela repressão a partir
de 1972, com a prisão dos principais dirigentes da Comissão de Fábrica
da Volks, a maior da região, e se completou com a grande repressão
contra o PCB nos anos 1974-1976.

Durante a pesquisa consultamos todos os números do jornal clandestino do
PCB, Voz Operária, que circulou mensalmente em plena ditadura entre os
anos de 1965 até janeiro de 1976, e também recolhemos o depoimento do
principal dirigente e organizador dos Comitês de Fábricas no principal
polo industrial do país naquele período: o camarada ferramenteiro Lucio
Bellentani. Em janeiro de 1976, com a ajuda de um traidor, a polícia
política invadiu o complexo gráfico do Partido no Rio de Janeiro,
prendeu os trabalhadores que lá estavam, bem como os dirigentes
partidários ligados à Voz Operária, muitos dos quais continuam com os
corpos desaparecidos até hoje. Com a queda, o jornal só voltou a ser
publicado novamente um ano depois no exterior.

A avaliarmos os números do jornal Voz Operária, poderemos ver claramente
que, mesmo nos momentos mais dramáticos da ditadura, o PCB sempre esteve
na resistência, tanto lutando para organizar pacientemente os
trabalhadores e as trabalhadoras no interior das fábricas, quanto nos
sindicatos, bem como procurando, através do jornal, divulgar as lutas
contra a ditadura, denunciar as torturas e buscar influir na grande
política e na resistência ao regime. Os comunistas pagaram um elevado
preço pela ousadia de enfrentar a ditadura, mas quem pesquisar esse
período poderá constatar o arriscado trabalho de militantes e dirigentes
que deram o melhor de suas energias, inclusive a própria vida, para a
organização do proletariado, pelas liberdades democráticas e emancipação
da classe trabalhadora na perspectiva da sociedade socialista.

As próximas gerações, quando tomarem conhecimento do que foi realizado
clandestinamente naquele período, deverão se mirar no exemplo desses
abnegados militantes da revolução e honrar o legado histórico do PCB. Se
este trabalho contribuir para tornar público esse período que a história
não contou, ficarei grato.

*Autocrítica e apontamentos para a organização nas empresas*

O golpe militar significou a maior derrota do movimento operário no
Brasil e de sua principal vanguarda, o Partido Comunista Brasileiro
(PCB). Um revés tão profundo que somente em 1965 o Comitê Central teve
condições de se reunir, avaliar autocriticamente o significado do golpe
e iniciar um processo de resistência ao novo regime. Na Declaração de
Maio de 1965, o Partido avaliou as debilidades que o levaram à derrota,
realizou uma autocrítica por ter se colocado a reboque de um setor da
burguesia nacional, e esboçou as primeiras orientações para o movimento
operário e popular nas novas condições. Nesse documento, destacou que a
política econômica-financeira da ditadura estava sendo ditada pelo Fundo
Monetário Internacional (FMI), denunciou que o novo regime destruiu as
liberdades públicas, colocou na ilegalidade as organizações sindicais
nacionais, como o CGT e as Ligas Camponesas, prendeu centenas de
dirigentes sindicais, destituiu inúmeras direções sindicais, impôs
interventores nas organizações mais destacadas, acabou com o direito de
greve e instituiu uma legislação salarial predatória ao longo de 21 anos.

Numa conjuntura dessa ordem o Comitê Central avaliou que o objetivo
imediato era isolar e derrotar a ditadura e conquistar um governo
amplamente representativo das forças antiditatoriais, ao mesmo tempo em
que conclamava as massas a desrespeitar a legislação ditatorial,
especialmente no que se refere aos direitos de reunião, manifestação e
de greve, lutar pela liberdade e autonomia dos sindicatos e participar
de forma ativa e unitária das eleições sindicais. O documento ressalta
ainda a importância de se organizar os trabalhadores do campo contra o
latifúndio e pela reforma agrária, com ênfase na aplicação do Estatuto
do Trabalhador Rural, garantia da posse da terra, regulamentação e
baixas taxas de arrendamento. “É intensificando nossa atividade entre as
massas, nas fábricas, nas fazendas, escolas e concentrações populares
que poderemos forjar a ampla frente única contra a ditadura … Devemos
dedicar os maiores esforços à recuperação das organizações de base e à
criação de novas, principalmente nas empresas, fazendas e escolas, e seu
fortalecimento político, político e ideológico, capacitando-as a
cumprirem suas pesadas tarefas”.

Em 1966, já refeito do trauma do golpe militar, o Partido elaborou uma
reflexão mais aprofundada sobre a conjuntura e os erros que levaram à
derrota do movimento popular e, especialmente, do próprio Partido
Comunista Brasileiro (PCB), na época a maior organização da esquerda no
país, bem como iniciou a construção de uma nova estratégia de construção
do PCB entre os trabalhadores e as trabalhadoras, tendo como centro as
grandes empresas. O documento de maio de 1966, assinado por Carlos
Oliveira, nome de guerra de um membro do Comitê Central, além da
autocrítica mais completa sobre as causas da derrota em 1964, enfatiza a
necessidade de uma nova estratégia de construção do Partido no meio do
proletariado. Oliveira argumenta que, antes do golpe, apesar das
recomendações partidárias, os responsáveis pelo trabalho junto à classe
operária davam mais atenção ao trabalho de cúpula do que à construção
nas bases e nos locais de trabalho.

Em uma dura autocrítica, o documento assinala: “A atividade nas bases,
isto é, nos locais de trabalho, nas empresas, foi subestimada e quase
não era realizada. E quando o era representava apenas um elemento
auxiliar da atividade das cúpulas sindicais. Com o golpe, as lideranças
sindicais foram ameaçadas, demitidas, presas, etc., e os sindicatos
invadidos, depredados e entregues a interventores da escolha e confiança
da ditadura”. Continuando a autocrítica, o documento indica que as
articulações daquela época não era mesmo um movimento operário, mas um
movimento reformista, economicista, cupulista, sem vínculo efetivo com
as bases: “A atividade do Partido junto aos trabalhadores tinha um
caráter predominantemente sindicalista, reformista, não revolucionário.
Na prática, ou no fundamental, éramos simples força auxiliar das cúpulas
sindicais e dos sindicatos”.

A declaração destaca ainda que, mesmo com experiência dolorosa do
passado, muitos ainda resistem à autocrítica porque falta a compreensão
de que não se deve confundir movimento operário com atividade sindical
ou movimento sindical, afinal o trabalho sindical do Partido é apenas um
elemento da atividade junto aos trabalhadores. Por isso, o documento
ressalta que é necessário mudar essa visão distorcida e levar a
atividade do Partido para dentro das empresas, que é o centro da
resistência operária.

Para o articulista da Voz Operária, isso não significava de forma alguma
deixar de lado ou abandonar o trabalho junto aos sindicatos e às
lideranças das cúpulas operárias, especialmente levando em conta a
conjuntura do país. No entanto, argumentava que o trabalho junto aos
sindicatos deveria ser melhorado, aperfeiçoado e intensificado, mas
seria um erro confundir a atividade puramente sindical com o movimento
operário. Ressalta ainda o artigo que, nas condições em que o país se
encontra, qualquer movimento reivindicatório de caráter econômico choca-
se com a política da ditadura, muito embora isso ainda não signifique
que a classe operária consiga espontaneamente adquirir consciência da
relação entre suas condições de vida e a ditadura. Por isso, os
comunistas devem levar essa compreensão à classe operária.

A justificativa do autor tem um fundo ideológico muito importante e
parece que artigo buscava intervir na disputa interna ou demover
resistências à nova orientação que ainda existia naquele período,
possivelmente em função do hábito do processo anterior. “Voltando a
nossa atividade para a empresa, centro de gravidade do movimento
operário, não o fazemos como sindicalistas, mas como revolucionários.
Não o fazemos apenas para mobilizar os trabalhadores em função dos
sindicatos e das lutas por aumentos salariais e outras reivindicações
econômicas. Mais do que isso, o fazemos tendo em vista esclarecer,
educar e organizar a classe operária como força de vanguarda na luta
pela renovação da sociedade brasileira. Limitar-se a uma atividade
puramente ou eminentemente sindical, descer ao nível de compreensão das
massas trabalhadoras e lá permanecer, circunscrever a nossa atividade a
organizar a luta por reivindicações econômicas, é cair no reformismo sem
consequência (inconsequente, EC). Como partido revolucionário, nossa
atividade não deve e não pode ficar presa aos estreitos limites do
sindicalismo. Deve e precisa ir além.”

Para Oliveira, essa compreensão é fundamental porque a classe operária
deve ser a força aglutinadora da luta de todas as forças sociais contra
a ditadura: “A grande contribuição que a classe operária pode e deve dar
hoje para a derrota da ditadura e sua substituição por um governo
representativo das forças democráticas e antiditatoriais é unir-se e
organizar-se em seus locais de trabalho e partir para as manifestações
de massa cada vez mais vigorosas contra a ditadura, em defesa das
liberdades democráticas, assumindo assim a vanguarda da luta de todo o
povo pela redemocratização do país”.

Em novembro de 1966, a Voz Operária voltava novamente ao assunto da
atividade de organização dos trabalhadores nas empresas, ao relembrar
que a ditadura estava buscando transformar os sindicatos em entidades
apenas assistencialistas e que era necessário aliar e combinar a
atividade sindical com o trabalho de construção no interior das
fábricas: “A atividade dos comunistas deve dirigir-se no sentido de
organizar e desenvolver a unidade de ação da classe operária na luta
pelos seus interesses econômicos e políticos imediatos e contra a
ditadura. Corrigindo erros do passado, quando o peso de nossas
atividades recaia no trabalho de cúpula, devemos orientar
fundamentalmente nosso trabalho para as empresas … Ao mesmo tempo, os
comunistas devem intensificar suas atividades nas entidades sindicais,
fazendo uma justa combinação entre o trabalho legal e o ilegal,
compreendendo que, por mais difícil que seja a atividade nos sindicatos,
jamais poderemos aceitar a tese de abandoná-los, a pretexto de que nas
atuais condições (os sindicatos) já não desempenham nenhum papel”.

Construir o PCB nas empresas parecia ser quase uma obsessão dos
dirigentes do Partido naquela época, possivelmente porque tinham
compreendido a profundidade da derrota, e estavam seguros de que era
fundamental mudar o rumo da política de organização do Partido entre o
proletariado, muito embora ainda não existisse um plano concreto para
viabilizar essa nova orientação. Pelos depoimentos que recolhemos nessa
pesquisa, o PCB conseguiu preservar células orgânicas em várias
empresas, apesar da brutal perseguição do regime. Lucio Bellentani, que
posteriormente seria a principal liderança desse processo de construção
do Partido nas grandes empresas, afirma que entrou na Volks em 20 de
setembro de 1964 como ferramenteiro e lá já encontrou militantes do PCB,
quando então decidiram construir uma organização de base na empresa, o
que se consolidou em 1965.

A partir de então esse trabalho seguiu de maneira articulada e
clandestina, chegando a constituir células de base em praticamente todas
as seções de trabalho da empresa. Provavelmente, o PCB tinha células
operárias em outras regiões, mas decidimos concentrar nossa pesquisa na
região do ABC, tanto por esta ter se tornado o polo mais industrializado
do país como também porque foi no ABC que o Partido concentrou seu
trabalho piloto, visando desenvolvê-lo posteriormente para outras cidades.

Às vésperas do VI Congresso, realizado em dezembro de 1967, a Voz
Operária voltou novamente a abordar a necessidade de construção do PCB
nas grandes empresas em um documento de novembro de 1967, intitulado
“Por que e como devemos construir o Partido no seio do proletariado”,
onde já abordava de maneira mais sistemática, com elementos táticos,
ideológicos e estratégicos, as proposições seriam melhor elaboradas no
VI Congresso. “O Partido só pode desempenhar um papel de vanguarda, isto
é, de orientador e dirigente revolucionário das massas, se tiver as suas
principais bases estruturadas e em ação no seio do proletariado, em suas
grandes concentrações empresariais. Esta constitui uma das razões porque
devemos construir o Partido no seio da classe operária … Liderando
parcelas da classe operária em qualquer local de trabalho ou de vivência
das massas, o Partido tem condições adequadas para a função de dirigente
das grandes massas”.

Para executar essa tarefa, os dirigentes do PCB recomendavam um trabalho
de longo prazo, articulado entre as várias instâncias de direção, com
deslocamento de quadros, estrutura clandestina de organização, junção do
trabalho legal e ilegal, com paciência e sem precipitações para não
alertar o inimigo sobre o trabalho que seria desenvolvido. Após indicar
que um elemento central para o êxito desse trabalho é uma justa linha
política na qual se conceba a revolução como um fenômeno de massas e não
como ocorre com a política foquista, mediante à qual se privilegia a
ação de pequenos grupos, isolados das massas, que se imaginam heróis da
classe operária, o documento esclarece:

“O trabalho revolucionário para se erigir o Partido no seio do
proletariado urbano e rural tem que ser feito o mais sigilosamente
possível, pois é a raiz da revolução que crava no próprio sustentáculo
do inimigo de classe, as empresas capitalistas. Este (trabalho, EC)
tanto pode ser feito de dentro como de fora para dentro, mobilizando
quadros, organizações e órgãos dirigentes e todo o seu aparelho de
propaganda, de material e de ação para este objetivo”. Para os
dirigentes daquela época a tarefa deveria ser conduzida a partir da
realidade concreta dos trabalhadores e não da pressa pequeno-burguesa,
que costuma queimar etapas e levar a divisão à classe operária.

O trabalho de construção de uma organização revolucionária no interior
da cidadela do inimigo deve ser encaminhada com uma linha política
clara, planificação, controle, distribuição de tarefas e engajamento do
partido nessa tarefa: “Um outro instrumento para a construção do Partido
entre o proletariado é a clareza de objetivos nesse sentido, no âmbito
nacional, estadual, municipal, distrital e local. A dinâmica da luta de
classes exige um plano e controle sistemático de sua execução,
considerando os inimigos que o proletariado enfrenta e que desejam sua
divisão e destruição … Sem um plano multifacético e um controle
sistemático, é muito difícil, e talvez impossível, construir o Partido
nas empresas. Essa tarefa do mais alto sentido revolucionário não pode
ser considerada como sendo de algumas pessoas, de uma frente do Partido
ou de um organismo. É um objetivo essencial, permanente e integral,
portanto, de todo o Partido, de todos os organismos e órgãos dirigentes
do Partido. Somente um trabalho coordenado global dos militantes pode
levar a um bom êxito esse empreendimento.”

*O VI Congresso e a tarefa histórica*

O VI Congresso do PCB marcou uma virada histórica tanto na linha
política em relação à ditadura, quanto na área sindical e,
especialmente, em relação à construção do Partido nas grandes empresas.
Naquele congresso elaborou-se uma resolução que caracteriza de maneira
mais precisa a realidade brasileira quanto às questões socioeconômicas,
particularmente em relação à composição industrial e agrícola do país.
Ressaltou-se que a economia passou a ter seu centro dinâmico no mercado
interno, que o Estado passou a ter um papel importante no
desenvolvimento econômico, que a ação do imperialismo provocava a
drenagem de parcelas significativas da riqueza nacional para os países
centrais e que a ditadura reforçava a dependência brasileira frente ao
capital internacional. Enfatizava ainda que o latifúndio era um entrave
para a expansão das forças produtivas, mas não obscurecia o peso da
penetração do capitalismo no campo. No que se refere aos trabalhadores,
a resolução constata a emergência e concentração do proletariado nas
indústrias de ponta, como automobilística, química, mecânica pesada,
construção naval, eletrônica e de material elétrico, o aumento
expressivo do número de assalariados rurais, trabalhadores da área do
comércio e dos serviços e um aumento exponencial dos habitantes das cidades.

O VI Congresso definiu que o proletariado brasileiro é a força motriz e
principal da revolução. O campesinato e a pequena burguesia urbana
constituem com ele as forças fundamentais. No entanto, como era a linha
política daquela época, afirmava que a burguesia nacional, tendo
interesses objetivos na emancipação do país, seria uma força capaz de
opor-se ao imperialismo e de participar da revolução em sua presente
etapa. Mesmo assim insistiam que a classe operária, unida à pequena
burguesia urbana e ao campesinato, deveriam lutar para conquistar a
hegemonia no processo revolucionário.

“A condição política fundamental para a transição ao socialismo reside
na hegemonia do proletariado … Esforçando-se para conduzir a luta contra
o imperialismo e o latifúndio, as mais amplas massas da população
brasileira, inclusive a burguesia nacional, os comunistas exercerão seus
esforços principais na mobilização do proletariado e formação de uma
sólida aliança com as forças fundamentais da revolução – os camponeses e
a pequena burguesia urbana – a fim de colocar o proletariado em
condições de conquistar o papel dirigente no bloco das forças
revolucionárias.”
Definidas as tarefas fundamentais e tendo o proletariado como centro do
processo revolucionário, muito embora mantivessem certas ilusões em
relação à burguesia nacional, o VI Congresso elaborou os elementos
estratégicos e táticos para aquilo que considerava seu desafio
histórico: a inserção do proletariado nas grandes empresas.

“O desafio histórico que se coloca diante dos comunistas brasileiros é o
da construção de um forte e numeroso partido na classe operária. Somos a
organização política que, ao longo dos tempos, levantou com firmeza os
interesses básicos dos trabalhadores. Somos o Partido que possui os mais
experientes quadros operários. Muitas das conquistas da classe operária,
direta ou indiretamente, foram alcançadas em lutas que os trabalhadores
empreenderam sob a direção do Partido. Fortalecer o Partido na classe
operária significa, antes de tudo, do ponto de vista nacional, elaborar
um plano a longo prazo para a construção e o reforçamento das
organizações partidárias nas grandes empresas. As direções deverão
acompanhar atentamente a vida das organizações de base nas empresas. O
recrutamento de novos membros para o partido, particularmente nas
empresas, deve ter curso no processo de luta de massas.”

O VI Congresso elaborou também as diretrizes para a atuação do Partido
no movimento sindical e inserção nas organizações legais dos
trabalhadores. Como formulação tática para colocar e desenvolver a luta
dos trabalhadores e das trabalhadoras, o Partido orientou no sentido de
que a luta deveria partir das reivindicações mais concretas, como
melhores condições de vida, aumento de salários, liberdades
democráticas, direito de reunião e manifestação, além das reivindicações
trabalhistas cotidianas. Nessa perspectiva, para o Partido, cada vitória
nas lutas cotidianas, por menor que fosse, acumularia forças para outras
lutas, os trabalhadores ganhariam mais experiência e se tornariam mais
preparados para lutas futuras.

A partir desses pressupostos, o Congresso definiu orientação para o
trabalho nos sindicatos, por entender que essas organizações sociais se
constituem no principal meio de ativação do movimento operário, o que
significa dizer que os comunistas também deveriam realizar uma ampla
política de filiação dos trabalhadores e das trabalhadoras em seus
sindicatos. Nesse processo, deveriam aproveitar todas as formas de
participação legal, inclusive participando das CIPAS, delegacias
sindicais, cooperativas, etc., para ampliar os laços efetivos com os
trabalhadores. Entre as orientações do congresso também constava atenção
especial aos comunistas que assumissem postos de direção nos sindicatos
e outras organizações de massa, de forma a que essas lideranças se
tornassem os melhores dirigentes populares.

A propósito, a Voz Operária de abril de 1968 traz uma importante
orientação sobre a dialética trabalho sindicato-organização nas
empresas, ao enfatizar que essa atuação tem uma importância fundamental
porque são instrumentos de luta por melhores condições de vida para os
trabalhadores e suas decisões facilitam o trabalho dos comunistas dentro
das empresas. Portanto, diz o documento, a atuação no sindicato deve ser
cotidiana e em estreita ligação com a organização nos locais de trabalho.

“O comunista na empresa deve ser um propagandista do sindicato, campeão
da sindicalização, estar em dia com o que se passa em sua entidade
profissional e levar e levar os trabalhadores a lutar pela aplicação de
suas decisões. Nesse sentido, é de vital importância combater as
tendências que levam a não atuar nos sindicatos, sob o pretexto de que
os mesmos são dirigidos por policiais ou que a ditadura não permite. Por
mais difícil que sejam as condições, devemos atuar intensamente dentro
dos sindicatos, levar a massa a participar de sua vida e, dentro deles,
luta para modificar a composição das diretorias que não correspondem aos
interesses da classe operária”.

Mas o documento alerta que esse trabalho deve se combinar com a luta e a
organização no interior das empresas. “É através dos combates diários
dentro da empresa que os trabalhadores vão adquirindo experiência e
consciência cada vez maior de que sua força reside na unidade e na
organização, de que dessa unidade e organização depende a conquista de
vitórias que, por pequenas que sejam, vão acelerando a derrota da
ditadura … Sem dúvida o trabalho dentro das empresas é uma tarefa penosa
e difícil nas circunstâncias atuais. Nós comunistas, que lutamos pelo
poder político para a classe operária, devemos saber encontrar em cada
local de trabalho os meios e as formas de nos identificarmos com as
massas, de nos fundirmos com elas, sentir seus problemas e com elas
encontrar a melhor maneira de solucioná-los”.

Com a elaboração das diretrizes táticas e estratégicas, em junho de 1968
a Voz Operária publica um longo documento de duas páginas e meia,
assinado por Murilo W. Meirelles, nome de guerra de outro dirigente do
PCB, no qual desenvolve mais amplamente as resoluções do Congresso e
justifica teoricamente as razões e o significado do trabalho de inserção
do Partido nas grandes empresas. Com o título igual a um documento
anterior, “Como e porque construir o partido nas empresas”, Meirelles
reforça o entendimento de que a construção do Partido nas grandes
empresas é uma missão histórica porque nas condições industriais e
tecnológicas em que o Brasil atingiu, o proletariado se encontra
concentrado exatamente nas empresas e, especialmente, nas grandes empresas.

Além disso, tratava-se de um proletariado muito jovem, onde mais de 50%
têm até 20 anos. Portanto, constituía um celeiro de futuros quadros que,
ao serem recrutados, poderiam se transformar em importante instrumento
de renovação do Partido, podendo inclusive mudar o perfil do PCB.
Meirelles avalia que a concentração operária nas grandes empresas traz
uma série de vantagens em relação a um ambiente em que a maior parte dos
operários trabalha em pequenas empresas, uma vez que, nos pequenos
estabelecimentos, os patrões podem exercer influência direta sobre os
empregados, enquanto nas grandes empresas isso não acontece. “Nas
grandes empresas, centenas ou milhares de operários nem chegam a
conhecer os exploradores e tendem à maior solidariedade, unidade e
combatividade”.

Meirelles também enfatiza outras características fundamentais da
organização partidária nas grandes empresas, ao constatar que a grande
maioria do proletariado tem origem recente no campo e geralmente traz
consigo elementos de atraso, como a ideologia pequeno-burguesa
individualista e aspirações materiais mínimas. “Mas é somente nas
grandes empresas, onde são rapidamente absorvidos e integrados no
coletivo operário, que se nivelam aos demais … Cada operário sozinho se
sente esmagado pelo sistema vigente, mas só nas grandes empresas o
proletariado encontra forças para resistir e lutar e onde apalpa (sic) o
valor de seu peso específico – milhares de um lado e o patrão de outro.
Na empresa e, em particular, na grande empresa, descobre o valor de sua
força ao acionar ou paralisar as máquinas, que são as vigas mestras que
sustentam o sistema de produção. É o estrato operário dos grandes
estabelecimentos, por sua característica de absoluta proletarização,
quem pode neutralizar a instabilidade e as inconsequências dos estratos
provenientes dos setores improdutivos que integram o vasto mundo que
hoje é a estrutura da classe assalariada”.

Outra característica importante para a luta de classes, conforme
assinala o artigo, é o fato de que os operários concentrados nas grandes
empresas se habituam com frequência a se relacionar com grandes
contingentes de massas e, ao se tornarem lideranças, já adquiriram
culturalmente as condições para dirigi-las. Além disso, a própria vida
prática do ofício nas grandes empresas, com sua hierarquia, integração e
disciplina, facilita sua integração numa organização partidária comunista.

“O operário do grande estabelecimento se habitua a movimentar e a lidar
com grandes contingentes humanos, condição necessária para se formar
como quadro. Neste tipo de local de trabalho, como no complexo
metalúrgico, mecânico, elétrico, da petroquímica, dos principais meios
de transportes, etc., onde se espraia a mecanização e a automatização, o
maior número da mão-de-obra qualificada, de nível cultural mais elevado,
com maior tendência à unidade, à organização é, obviamente, propício a
produzir líderes e quadros … Pelos organogramas das empresas, no sistema
de sua organização e de produção, os empregados são integrados e
funcionam em tal hierarquia e democracia (sic), assim como numa
disciplina e num coletivo que facilita naturalmente sua estrutura
orgânica e integração ideológica nos princípios partidários, na sua
democracia e disciplina. Facilita a construção e a consolidação das
organizações de base, bem como a formação de suas direções”.

Para aplicar de maneira correta as tarefas do desafio histórico
formulado no VI Congresso, Meirelles elaborou um longo histórico de
experiências do Partido desde a década de 40 do século passado,
procurando para cada momento ressaltar tanto a orientação política
quanto os erros e acertos na sua aplicação, de forma a que se
recolhessem as experiências positivas e não se repetissem novamente os
equívocos do passado. Meirelles destaca que, após o golpe de 1964,
algumas iniciativas de construir o Partido nas empresas foram feitas por
organizações estaduais e locais e o partido inclusive destacou quadros
qualificados para essa tarefa. Muito embora muitas dessas iniciativas
tenham tido êxito, não significou uma mudança de qualidade na ação do
Partido para cumprir essa tarefa, como propõe a resolução do VI
Congresso. Meirelles recomendava ainda que, na execução dessa nova
tarefa, o Partido deveria levar em conta os elementos específicos entre
empresas públicas e privadas, nacionais e estrangeiras, bem como as
características dos diversos setores da economia, como o industrial, o
agropecuário e o setor terciário, além das características específicas
da própria empresa em que se vai desenvolver o trabalho.

Metodicamente, o documento elenca especificamente que, para não
dispersar forças, o Partido deveria estabelecer uma política de
concentração, além do balanço das tarefas ao longo de todo o processo de
implementação dessa política. Para tanto, deveria estabelecer
prioridades na distribuição de quadros experientes, inclusive
recomendando que se empregassem em grandes estabelecimentos ou se
transferissem de pequenas para grandes empresas. Essas tarefas deveriam
envolver todos os organismos do Partido, bem como era necessário ainda
um plano de agitação, propaganda e formação, além de orçamento visando
atingir os objetivos. Reconhecendo as dificuldades e complexidade de
realização de uma tarefa dessa ordem o documento ressalta algumas
recomendações específicas, com muita atualidade até nos dias de hoje:

“O inimigo é vigilante e reforça, à base de sua experiência, a
vigilância nos locais de trabalho e é impiedoso. Realiza a repressão, a
infiltração e a corrupção. Por isso, é preciso aprender bem a lição
histórica de necessidade de absoluto sigilo e vigilância na organização
e ação dos militantes estruturados. Cada tarefa interna ou externa, como
distribuição de material, figurar em comissões, no trabalho sindical ou
outra qualquer, exige a distribuição adequada das responsabilidades,
tendo sempre em vista a possibilidade de uma descoberta, uma denúncia,
uma demissão do emprego ou a repressão. Não se trata de recuar nas
funções revolucionárias, mas de distribuir de tal maneira os ativistas
para que, mesmo ocorrendo uma fatalidade, não venha a ser atingida toda
a organização ou os quadros mais eficientes. Somente assim é possível
agir e continuar, continuar e consolidar para sobreviver em qualquer
situação política – nacional ou local. Lembremo-nos sempre: na empresa é
onde a luta de classes é antagônica à conciliação, onde ela é firme e
consequente até o fim”.

Todo o trabalho de organização no interior das empresas se tornou muito
mais difícil com a decretação do Ato Institucional nº 5, de 13 de
dezembro de 1968, quando na prática ocorreu um golpe dentro do golpe, e
a ditadura desenvolveu um regime claramente fascista. Vale lembrar que,
antes do AI-5, o ano de 1968 foi marcado por grandes mobilizações dos
estudantes, dos intelectuais, artistas, bem como duas grandes greves
operárias que vieram questionar mais fortemente o regime. Passeatas
foram realizadas no Brasil inteiro, especialmente após o assassinato do
estudante Edson Luís de Lima Souto, no restaurante universitário do
Calabouço, um local onde os estudantes pobres faziam refeições diárias
no Rio de Janeiro.

A principal dessas passeatas foi realizada em 26 de junho de 1968 no Rio
de janeiro, quando reuniu cerca de 100 mil manifestantes e ficou
historicamente conhecida como a passeata dos 100 mil, mas ocorreram
manifestações em todas as grandes cidades do país. Em 12 de outubro de
1968 ocorreu um duro revés para o movimento estudantil e a União
Nacional dos Estudantes (UNE), que vinha efetivamente comandando as
manifestações de massa no país. Todos os cerca de 700 delegados
presentes ao XXX Congresso da UNE, que estava sendo realizado
clandestinamente em um sítio na cidade paulista de Ibiúna, foram presos
numa operação comandada pelo DOPS de São Paulo, com o apoio do Exército.
Em outras palavras, todas as lideranças estudantis foram apanhadas pelo
regime, levando a uma progressiva desarticulação do movimento,
especialmente após o AI-5.

Antes do AI-5 ocorreram também greves operárias contra o arrocho
salarial, mas nenhuma teve a dimensão das duas principais greves de
1968. A primeira das greves ocorreu na cidade industrial mineira de
Contagem e começou em 16 de abril na Companhia Belgo Mineira, quando os
operários fizeram reféns os diretores da empresa e se declararam em
greve. Depois o movimento se espalhou por outras 17 fábricas, tendo como
reivindicação um aumento salarial de 25%. Foi uma greve que nasceu a
partir da base operária. Como diz Voz Operária: “Os operários
permaneceram durante 24 horas parados dentro da empresa, organizados e
unidos, serenos, confiantes na sua força, dialogando com os engenheiros
e mesmo com soldados da PM que vieram sitiar a empresa. Os grevistas não
se assustaram com o aparato policial. Decidiram dialogar, explicar a
greve, argumentando com os soldados mais acessíveis que os próprios
soldados não podiam viver com os soldos miseráveis que o governo lhes
pagava e que o arrocho salarial também os atingia”.

A greve surpreendeu a ditadura e até o sindicato local: o próprio
ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, se deslocou até Minas
Gerais para negociar uma solução da greve, bem como o sindicato também
começou a se envolver nas negociações. Ao final de nove dias de greve, o
governo concedeu um abono aos trabalhadores de Contagem, que
posteriormente foi estendido a todos os trabalhadores e trabalhadoras
brasileiros. Foi uma grande vitória operária porque começou a quebrar o
arrocho salarial e o governo se comprometeu a não punir os grevistas.
Nesse movimento teve um papel importante o camarada Neres, dirigente do
PCB de Minas Gerais, posteriormente preso pela ditadura. Foi o último
preso político a sair da prisão com a anistia.

Mas a maior e mais organizada greve do período foi realizada pelos
operários da cidade industrial de Osasco. O sindicato dos metalúrgicos
da região fora ganho pela oposição sindical, comandada por José Ibrahim,
e desenvolveu um intenso trabalho de organização no interior das
fábricas – os chamados Grupos dos 10, que logo se espalharam pelas
empresas da região. A nova diretoria programou uma greve da categoria
para novembro de 1968, mas como as bases já estavam fazendo greves
espontâneas, então a direção resolveu antecipar o movimento grevista
para junho. A greve foi tão bem organizada que um panfleto elaborado
dias antes descrevia exatamente como deveria se processar a greve. “Às
8:45 horas as Indústrias Granada e Barreto Kelly aderiram à greve e
todos os trabalhadores saíram juntos das fábricas marchando para o
sindicato … Duas horas depois a Lonaflex parou, declarando-se solidária
ao movimento grevista”. E tudo ocorreu exatamente como descrevia o panfleto.

A repressão ao movimento foi violenta, num nível maior do que os líderes
metalúrgicos imaginavam. As forças do Exército invadiram a cidade, com
soldados da Força Pública e do DOPS, com cavalaria, brucutus, controle
da entrada e saídas da cidade e cerco às fábricas, exigindo que os
operários abandonassem as empresas. Na Cobrasma, a maior de todas, os
trabalhadores resistiram dentro da fábrica e a polícia invadiu o
estabelecimento. Ocorreu uma batalha campal no interior da fábrica ao
longo da noite e pela manhã a polícia prendeu 300 trabalhadores.
Enquanto isso, o governo decretou intervenção no sindicato e nomeou um
interventor, que tentou entrar no Sindicato com um pelotão policial, mas
os trabalhadores o impediram de entrar no prédio. Novamente a polícia
invadiu o sindicato e prendeu lá dentro mais 80 trabalhadores. A partir
daí o movimento arrefeceu e a greve foi derrotada, mas significou o
momento mais elevado da luta de classes naquele ano de 1968.

Em PCB
https://pcb.org.br/portal2/32848
19/5/2025

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