PCB e o trabalho clandestino nas fábricas (2)
29 de maio de 2025
*Um plano detalhado de inserção no proletariado*
Edmilson Costa – doutor em economia pela Unicamp e secretário geral do PCB.
O jornal Voz Operária de janeiro de 1969 destaca com veemência que o
AI-5 teve como objetivo golpear o movimento operário para ampliar as
arbitrariedades contra os sindicatos e, inclusive, contra a Justiça do
Trabalho. Portanto, os trabalhadores e as trabalhadoras encontravam-se
diante de condições muito mais difíceis que o período anterior e que,
naquelas circunstâncias, a unidade e a organização da classe assumiam um
papel ainda mais decisivo na luta contra a nova ofensiva da ditadura. O
jornal registra ainda que as novas medidas tomadas pelo regime foram uma
reação à movimentação e às greves dos trabalhadores e trabalhadoras na
luta contra o arrocho salarial:
“O ano de 1968 marcou um nível mais alto nas lutas dos trabalhadores,
depois de enfrentarem e superarem enormes dificuldades impostas pelo
golpe de abril de 1964. Em vários Estados foi golpeada a política de
arrocho salarial. Numerosas e vigorosas greves foram desencadeadas em
importantes setores profissionais, como bancários, metalúrgicos,
gráficos e assalariados agrícolas. Libertos das intervenções, grande
parte dos sindicatos começou a passar às mãos de verdadeiros
representantes dos trabalhadores. Concorridas e movimentadas assembleias
eram realizadas. Importantes encontros de âmbito regional e nacional
eram promovidos, contribuindo para uma unidade mais ampla dos
trabalhadores em torno de programas comuns”.
“Nessa conjuntura e diante das novas dificuldades, um novo e árduo
caminho deverá ser perseguido”, diz o número seguinte do jornal. Mesmo
sem abrir mão do trabalho sindical, apesar da ditadura querer
transformar as entidades em instituições recreativas, a hora era de
redobrar esforços para a organização do trabalho no interior das
empresas. “… Os trabalhadores devem ter certeza de uma coisa, que a base
de sua organização é a empresa. Podem fechar os sindicatos ou limitar
seu poder de decisão. Entretanto, as fábricas eles não fecham. Sem
deixar um só momento a luta pelo fortalecimento de seus sindicatos,
através de uma maciça sindicalização e participação em suas atividades,
os trabalhadores devem intensificar cada vez mais a sua organização nos
locais de trabalho. Não importam as formas de organização, se conselhos
sindicais ou comissões sindicais, etc. O importante é unir e criar as
condições mais elementares de organização. No processo de lutas por suas
reivindicações, quer no âmbito das empresas ou das reivindicações
gerais, os trabalhadores criarão as condições … para o desenvolvimento
de lutas de lutas vigorosas da classe operária e do nosso povo contra a
ditadura implantada em nosso país desde abril de 1964”.
Por iniciativa do Comitê Central (CC), em outubro de 1968, foi realizado
um ativo sindical nacional para se debater o desafio histórico de
construção do Partido no interior da classe operária e, especialmente,
nas grandes empresas. Em fevereiro de 1969 o próprio CC formulou uma
resolução pela qual determinava a todos os Comitês Estaduais e
Territoriais a construção do Partido nas empresas, “fundamentalmente nas
grandes empresas”, bem como estimulava todas as organizações partidárias
a realizarem encontros visando a permuta de experiências e as formas de
organização do Partido nas empresas.
Na edição de julho de 1969, a Voz Operária divulgou um longo documento
onde fundamenta o desafio histórico aprovado no VI Congresso,
reafirmando a concepção de que a revolução é um fenômeno de massas e não
pode ser guiada pela ação imediatista da pressa pequeno-burguesa;
realiza um diagnóstico das modificações ocorridas na sociedade
brasileira, tais como a dinâmica do processo de industrialização, a
concentração do proletariado nas grandes empresas e o aumento dos
assalariados no campo, bem como destaca a proletarização de vastos
setores da pequena burguesia e o crescimento desses setores nos centros
urbanos. Essas modificações ocorridas no capitalismo brasileiro –
ressalta o documento – não solucionaram os problemas que afligiam a
população. Por isso era fundamental organizar os trabalhadores e as
trabalhadoras nos locais de trabalho, preferencialmente nas empresas
industriais.
Especificamente no que se refere à organização no interior das empresas,
o documento realçava que o trabalho junto à classe operária é
determinante porque o proletariado fabril, ao estar integrado no
processo de produção e ser explorado, reúne a característica de classe
unida na luta por suas reivindicações e pelo socialismo de maneira mais
firme e consequente que qualquer outra classe. Por isso, o Partido
deveria centralizar sua organização nos locais de trabalho da classe
operária.
“Na grande empresa a exploração dos trabalhadores é muito maior, devido
ao desenvolvimento tecnológico e à organização do trabalho, que
contribuem para extrair do operário o máximo de suas forças. O
trabalhador da grande empresa pode verificar com relativa facilidade
como ele é explorado no trabalho, inclusive pelo seu esgotamento físico,
e como se acumula a riqueza dos donos das empresas. A grandeza da
fábrica e a variada complexidade de suas máquinas deixam claro para os
operários porque eles não detêm os meios de produção. Trabalhando
juntos, centenas e milhares de pessoas, torna-se mais fácil conhecerem-
se entre si; sofrendo a mesma exploração, subordinados às mesmas normas
e regulamentos do grande patrão, o caminho para a unidade, a organização
e a solidariedade fica mais claro e melhor para ser trilhado. Esses
fatores fortalecem a consciência de classe, bem como estimulam o ódio
aos patrões exploradores, aguçando a luta de classes e a necessidade de
transformar esse sistema social e político numa sociedade em que não
haja exploração do homem pelo homem”.
Para o PCB, a política de concentração nas grandes empresas não
significava o abandono da organização nas empresas de serviços,
comerciais, escolas ou escritórios ou junto aos trabalhadores rurais,
afinal esses outros setores do proletariado são aliados do proletariado
fabril no processo da revolução brasileira. A orientação do documento
era de que esse trabalho fosse implementado a partir das reivindicações
mais imediatas dos trabalhadores, o que seria de mais fácil compreensão
e possibilitaria aproximar os trabalhadores do Partido.
“Aqueles que ingressam no Partido o fazem por muitos motivos, porém, a
maioria não conhece a ideologia do Partido, nem assimila sua política de
organização. A nossa primeira tarefa deve ser a de formar a consciência
partidária entre os novos recrutas, através do trabalho ideológico e
político em termos teóricos e práticos e de forma sistematizada. Sem
isso, o número de ativistas entre os filiados será sempre inexpressivo …
O trabalho de educação é decisivo nessa tarefa, porém é preciso
compreender como educação não apenas os cursos, mas toda a atividade
partidária, a vida do Partido, isto é, a vida revolucionária”. Entre
outras maneiras de formar a militância, o documento recomendava o estudo
de livros e revistas, os círculos de estudo, seminários e cursos. Além
dessas tarefas, o Partido fez ainda um conjunto de recomendações aos
órgãos intermediários no sentido de que deveriam estudar as condições
dos seus locais de atuação, as empresas onde seria realizado o trabalho
e os problemas mais sentidos pelos trabalhadores e pelas trabalhadoras,
porque só assim poderiam se aproximar do operariado e cumprir o desafio
história dessa construção.
Estavam assim criadas as condições para a construção prática do desafio
histórico. Isso foi realizado através da elaboração de um plano
detalhado sobre a construção de bases comunistas nas grandes empresas.
Trata-se do documento de seis páginas no qual se estabelecem os
princípios, objetivos, diretrizes específicas, prazos e recomendações
gerais, ou seja, um roteiro pormenorizado para a implementação do plano.
Datado de fevereiro de 1970, o documento se intitula “Roteiro do Plano
de Construção e Consolidação do Partido nas Empresas (Placconpe)” e seus
redatores o dedicam ao centenário de Lenin. Mais uma vez o documento
reafirmava que a construção do Partido nas grandes empresas, tanto nas
empresas industriais, dos transportes, comunicação, comerciais, de
serviços e agroindustriais e agropecuária e entre os assalariados
rurais, era uma tarefa estratégica para a luta não só para derrotar a
ditadura, mas para criar as condições visando a realização da revolução
brasileira.
O Plano estabelecia para as organizações de base do Partido um prazo de
dois anos para a implementação das tarefas e definia que cada escalão
partidário deveria realizar uma planificação específica para o trabalho
de organização das bases em sua área de atuação, bem como determinava
que o Comitê Central deveria realizar uma política de destinação de
recursos para a construção e consolidação do plano. Como o documento
enfatizava, para que fosse realizado um processo de construção e
consolidação organizativa, presumia-se que já existiam bases organizadas
e que o plano se encarregaria de absorver as experiências em curso e
definir um trabalho metódico e planejado a partir de então.
Para os redatores do documento, o Placconpe abriria caminho para a
aplicação plena do desafio histórico definido pelo VI Congresso e
contribuiria para organizar e conduzir as massas para tarefas como a
luta pela conquista das liberdades, a anistia geral, a convocação de uma
assembleia constituinte e a formação de um governo das forças
antiditatoriais. Nesse processo, diz o documento, é fundamental garantir
uma posição independente da classe operária que, com essas diretrizes,
prosseguirá sua luta até a conquista do socialismo no Brasil. Em termos
práticos, o Placconpe fixava as seguintes diretrizes para a construção
do Partido entre os trabalhadores nos seguintes setores: “Nas massas das
empresas industriais, fundamentalmente nas grandes empresas; nas
empresas de transporte, comunicação e nos grandes empórios comerciais;
nas empresas agroindustriais e agropecuárias (bem) como entre
assalariados e semi-assalariados agrícolas, fundamentalmente nas grandes
concentrações; nos serviços públicos, nas universidades e escolas
técnico-profissionais, incluindo professores e estudantes fundamentalmente”.
O documento esclarecia que era importante fortalecer as organizações já
existentes nas empresas e formar novas organizações de base dentro de
uma política de massas, visando ligar essas células clandestinas às
organizações de massa nas empresas e nas categorias profissionais. Entre
os pré-requisitos para que um plano dessa natureza tivesse êxito, era
necessário um diagnóstico sobre a área de atuação de cada organização de
base, sobre as empresas onde seria realizado o trabalho, bem como em
relação à qualidade do militante a ser recrutado (operário, líder de
massas, jovem, técnico), de forma a desenvolver uma política de
construção dentro da cultura comunista, especialmente levando em conta o
centralismo democrático.
O Placconpe recomendava ainda que o trabalho de construção nos locais de
trabalho deveria ser combinado com o fortalecimento dos sindicatos nas
empresas e junto aos trabalhadores e às trabalhadoras, além do
necessário trabalho ideológico de formação para elevar a consciência
revolucionária dos quadros dirigentes de forma a estimular iniciativas e
firmeza nas ações de massa. Outro elemento importante do plano era o
processo de planificação e assimilação da linha política elaborada no VI
Congresso e o trabalho de solidariedade entre trabalhadores e trabalhadoras.
“Planificar, em cada escalão partidário, a formação de direção de base
da empresa e também de camponeses e estudantes. Ajudá-los a assimilar e
aplicar a linha política do Partido e, igualmente, a formação de
quadros, incluindo cursos, círculo de estudos, palestras, debates e
pesquisa e etc. A planificação dessa medida deve ser iniciativa dos
órgãos intermediários, com o apoiamento das organizações de base …
Orientar a organização e o funcionamento da solidariedade de massa e a
prática do internacionalismo proletário em todos os escalões
partidários, ganhando as bases para a participação ativa do trabalho de
solidariedade”.
O Plano também definiu um roteiro de discussão e implementação das
tarefas, ressaltando que esse trabalho estaria subordinado ao Comitê
Central. As discussões deveriam começar nos Comitês Estaduais,
Territoriais e nas Grandes Empresas, onde seriam aprovados os objetivos,
diretrizes e metodologias de trabalho e, posteriormente, essas
discussões seriam realizadas pelos órgãos intermediários e de base, que
deveriam especificar as tarefas de cada órgão na construção partidária,
entre as quais as seguintes tarefas:
“Relacionar as empresas existentes na área da organização, de acordo com
o grupo de empresas (A, B C, e D), selecionar aquelas que devem ser
objetivo de planejamento e definir as que são fundamentalmente
importantes para a política de concentração … Selecionando o que fazer …
onde e como, quem e quando fazer”. Previa ainda a mobilização de
militantes para que o processo de discussão envolvesse a todos, de forma
a que pudesse implementar o plano de baixo para cima, garantindo que os
objetivos nacionais fossem resultado do debate realizado por cada base.
Com essa estrutura de trabalho, o Placconpe advertia também para a
necessidade de organizar os trabalhadores e as trabalhadoras tanto para
o trabalho legal quanto ilegal, bem como observar com atenção as normas
de segurança e vigilância.
Finalmente, o Plano estabelecia o prazo de dois anos para o cumprimento
dessas tarefas, divididos em dois períodos, envolvendo a preparação e
execução: “O período de preparação é de seis meses – inicia-se em
primeiro de maio e termina em 31 de outubro de 1970. O período de
execução é de um ano e meio – inicia-se em primeiro de novembro de 1970
e termina em 30 de abril de 1972. O período de execução está dividido em
três fases – de seis meses cada uma – para efeito de controle global em
todo o território nacional” . Após o estabelecimento dos prazos,
estabelecia-se um conjunto de medidas práticas orientando a forma com
que as organizações do Partido deveriam fazer para aplicá-lo: “Recrutar
e organizar os trabalhadores assalariados nos quatro grupos de empresas
objetivados de acordo com os pré-requisitos estabelecidos; estruturar
novas organizações de base de empresas e consolidá-las, fortalecendo as
existentes e as novas, com a prática do trabalho ideológico e político
das massas; recrutar e organizar nas empresas de âmbito nacional de
grande região geográfica à base de planos específicos, sob o controle do
CC (Comitê Central, EC) e apoiados nos órgãos estaduais e municipais,
onde se encontram instalados, objetivando a construção e consolidação de
cada organização”.
Prossegue o documento de orientação do trabalho nas grandes empresas:
“orientar os membros do Partido nas organizações de base a filiarem-se
às entidades de massa da empresa ou categoria profissional e planificar
na base e nos órgãos intermediários a formação e funcionamento das
frações (órgão coordenador de uma determinada tarefa de uma categoria,
EC); organizar o trabalho de finanças na organização de base e
concentrar no Mês Nacional das Finanças (outubro); adotar no CC e em
todos os órgãos intermediários uma política correta de destinação dos
recursos financeiros para a construção e consolidação do Partido nas
empresas, tendo em vista a política de concentração”. O Placconpe previa
ainda uma política de formação dos militantes, um trabalho de agitação e
propaganda pelas bases e a distribuição do jornal clandestino do
Partido, a Voz Operária, entre os trabalhadores.
Bellentani, o ferramenteiro da revolução
A região em que o PCB apostou como espaço-piloto para a implementação
desse projeto foi o ABC Paulista e, especialmente, a maior empresa
metalúrgica da região, a Volkswagen, que na época tinha cerca de 30 mil
operários. A decisão de centralizar o trabalho no ABC estava dentro da
análise da conjuntura brasileira e do desenvolvimento industrial que o
Comitê Central tinha elaborado em resoluções anteriores para justificar
a construção partidária nas grandes empresas. Isso porque nessa região
encontravam-se praticamente todas as empresas automobilísticas, as
maiores metalúrgicas e produtoras de autopeças do país, bem como o maior
contingente do proletariado. Como o desafio histórico era a construção
de um forte e numeroso Partido na classe operária, a decisão de
centralizar o trabalho no ABC era o caminho natural do PCB. Além disso,
o Partido tinha uma longa tradição na região. Em 1947 o marceneiro
Armando Mazzo foi eleito prefeito de Santo André, tornando-se o primeiro
prefeito comunista do Brasil. De igual forma, o PCB sempre teve bases
operárias na região, mesmo após as perseguições realizadas pela
ditadura. Essa tradição de luta na região possibilitava ao Partido ter
um conhecimento melhor que outras organizações no teatro de operações
onde iria desenvolver a construção das células comunistas. Por isso, o
ABC foi transformado em local privilegiado para essa operação política
junto à classe operária contra a ditadura.
Vejamos o que nos informa o principal organizador do trabalho político
na região, o ferramenteiro da Volks, Lucio Bellentani, que também era o
secretário político do Comitê de Empresa da Volks e principal
organizador clandestino dos operários na região. “Entrei para a Volks em
setembro de 1964 e no início de 1965 o Antônio Turini, que já trabalhava
na empresa e era militante do PCB, me recrutou. A partir daí começamos
nossa militância. Mas é importante dizer que meu pai e minha mãe eram
militantes do PCB. No início, começamos a discutir a necessidade de
organizar o Partido na fábrica e no Município, mas essa organização
visava inicialmente mais o trabalho de oposição sindical porque o
Sindicato dos Metalúrgicos, naquela época, era dirigido por um grande
pelego, o Paulo Vidal”. O Partido chegou a lançar, em 1970, uma chapa de
oposição no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Essa chapa era
composta por militantes do Partido e por integrantes da cooperativa dos
trabalhadores, mas não obteve êxito na eleição. “Uma coisa interessante
nessa eleição é o fato de que Lula era da outra chapa e foi eleito como
suplente à Federação dos Metalúrgicos”.
A informação de que Paulo Vidal era um pelego e aliado dos patrões e da
ditadura pode ser confirmada pela Voz Operária de junho de 1970, em
matéria assinada por Amador Bueno, na qual ele relata uma série de ações
de Vidal contra a classe operária e, pelos dados objetivos que expõe,
devia ser um militante que estava presente no movimento sindical da
cidade e nas assembleias do sindicato. “O presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, além de se colocar a serviço das
empresas, é um agente do aparelho policial e repressivo do governo,
remetendo para o SNI, DOPS e etc., relatórios das assembleias, como fez
na assembleia do dia 20 de fevereiro último, à qual tratava de debater o
reajuste salarial do último dissídio coletivo … Na assembleia do Cine
Anchieta … foi surpreendido com a participação de uma massa com mais de
mil trabalhadores e percebendo que a esmagadora maioria defendia um
reajuste de 35% (enquanto ele queria apenas 30%, EC) e a unidade com os
demais metalúrgicos do interior do Estado, procurou manobrar, ganhar
tempo e vencer pelo cansaço. Ficou ainda mais apavorado com o nível de
consciência política demonstrada pelos trabalhadores que renderam um
minuto de silencio em homenagem e solidariedade aos companheiros presos
pela ditadura”. Percebendo que estava derrotado, o agente patronal foi
manobrando, desde as 19:15 horas e só à meia noite, quando a massa
cansada e irritada se havia retirado em sinal de protesto e a assembleia
estava reduzida a 141 pessoas, é que permitiu a votação das resoluções”.
Só assim Paulo Vidal teria conseguido aprovar suas resoluções, inclusive
impedindo a recontagem dos votos. As resoluções eram tão absurdas que o
próprio Tribunal Regional do Trabalho não as aceitou e julgou o processo
coletivo em conjunto com os metalúrgicos do interior, que aprovaram os 35%.
Na região do ABC concentrava-se não só o núcleo duro da classe operária,
com centenas de milhares de trabalhadores sendo que a Volks era a maior
fábrica da região. A organização do Partido na Volks, conta Bellentani,
envolvia paciência, segurança e vigilância, afinal não se pode esquecer
que o país estava vivendo uma ditadura. O Comitê Central, empenhado na
implementação do projeto, prestava muita assistência às lideranças
comunistas da região, com orientação e muitos cursos de formação
política. Bellentani conta que, entre os fatos que inspiraram a
organização na Volks, estavam as leituras que fazia da guerra do Vietnã
e a maneira como o general Giap organizava os guerrilheiros, de forma
compartimentada, em plena guerra. Então Bellentani deduziu que, se era
possível organizar guerrilheiros nas selvas, debaixo de balas e bombas,
também era possível organizar os trabalhadores numa ditadura.
E assim foi feito. “Então fomos realizando o trabalho de organização. A
base foi crescendo. Muitas vezes a gente fazia reunião dentro da própria
fábrica, às vezes no vestiário, nos banheiros. Essas reuniões eram mais
para a distribuição de tarefas e material, entrega de boletins,
preparação para as assembleias no sindicato. Mas isso era feito com o
máximo de cuidado: quando nos reuníamos, deixávamos alguém na porta dos
vestiários vigiando. Se aparecesse qualquer estranho, o companheiro
assobiava e a gente se dispersava”.
Esse processo de organização foi se tornando cada vez maior com o
recrutamento de novos militantes e o Partido chegou a ter organização de
base em quase todas as seções da empresa. “Em 1970 e 1971 nós
distribuíamos cerca de 300 exemplares da Voz Operária no interior da
fábrica e tínhamos cerca de 200 operários contribuindo mensalmente para
o Partido. Inclusive estávamos planejando comprar uma gráfica off-set,
que na época era uma coisa muito avançada. Já tínhamos dinheiro para
isso … As bases eram organizadas pelas seções com no máximo seis pessoas.
A organização era compartimentada, sendo que os trabalhadores-militantes
não se conheciam e apenas o responsável de cada base tinha contato com
alguém do comitê dirigente dos comunistas da empresa. “Esse Comitê era
constituído pelos seguintes camaradas: Lucio Bellentani, Antônio Turini,
Afonso Espanhol, Ane Marie e Henrich Plage. Estes dois últimos eram
alemães, mas viviam há muito tempo no Brasil e o Heinrich Plage era
gerente de um departamento da fábrica, o que nos permitia obter
informações sobre os planos da empresa. Também fazíamos boletins no
reco-reco, que era um mimeógrafo de mão. Mas a partir do momento em que
a segurança da empresa começou a encontrar material nosso, aumentou a
segurança e eles passaram a fazer revista dos trabalhadores na entrada e
na saída da fábrica”.
Como a empresa identificou que algo estranho estava acontecendo, começou
também a se organizar para intensificar a vigilância e a repressão aos
trabalhadores. Dessa forma, o Comitê da Fábrica traçou uma nova
estratégia tanto para a continuidade do trabalho dentro da empresa
quanto em relação à segurança dos militantes. Quando tinham que
distribuir algum material para os trabalhadores e as trabalhadoras ou
fazer panfletagem dentro da empresa, era feito um planejamento com
vários dias de antecedência para que o material entrasse com segurança.
“Decidimos que os militantes deveriam levar o material dentro das
marmitas, enrolados num saco plástico embaixo do arroz ou do feijão. Aí
íamos armazenando o material num fundo falso de um armário da
ferramentaria até o dia em que iríamos distribuir. Nós tínhamos tanta
atenção com a segurança que aqueles que companheiros atuavam no
sindicato se reuniam em separado dos que atuavam somente na empresa. O
processo de distribuição era o seguinte: botávamos nos ganchos e nas
esteiras e o material ia rodando pela fábrica e os operários iam
pegando. Distribuímos também nos pontos de ônibus onde passavam os
operários”. Da Volks o trabalho foi se estendendo para outras grandes
empresas da região: “Tínhamos gente na Williams, Mercedes, Motores
Perkins, Rolls Royce, entre outras. Não eram tão organizados como na
Volks, mas se espelhavam nesse trabalho que fazíamos na Volks e a
assistências à organização nas outras empresas era feita pelos camaradas
da Volks.”
Um dos elementos mais importantes na estratégia do PCB era a formação
política, através da qual seria possível formar quadros operários
dedicados à revolução, uma vez que o Partido avaliava que os operários
geralmente traziam consigo concepções estranhas ao proletariado e, caso
fossem deixados à própria sorte, não iriam além da consciência
sindicalista. Por isso, era fundamental o trabalho de educação política,
conforme assinala a Voz Operária de fevereiro de 1971. “A experiência
tem demonstrado que, apesar de todas as dificuldades … é possível
organizar bases do Partido nas grandes empresas. Entretanto, essas
bases, em geral, só conseguem se consolidar na medida em que, ao lado do
trabalho de organização, é levado à frente o trabalho de educação de
seus membros”.
Nessa perspectiva, Voz Operária toma como exemplo o trabalho que estava
sendo realizado no ABC paulista, muito embora numa linguagem cifrada
para despistar a polícia. “A experiência de São Paulo tem demonstrado
que uma atividade de massas concreta dentro da empresa – como tem sido o
trabalho nos conselhos ou comissões sindicais ou, em alguns casos, o
trabalho de agitação e propaganda em torno de problemas que estão
afetando as massas da empresa em questão -, permite o recrutamento de
novos membros para o Partido e a estruturação de novas bases. Daí em
diante o trabalho de educação desses novos militantes, que atualmente
está sendo feito em torno do estudo do ‘ABC do PCB’, adquire uma
importância fundamental, uma vez que lhes permite a elevação do nível de
conhecimento dos problemas do Partido e de alguns elementos de nossa
teoria”. Ou seja, o trabalho de formação era fundamental para a educação
ideológica da militância operária, contribuindo para impulsionar a ação
tanto nas empresas quanto junto às massas.
Todo esse trabalho de organização caiu quando foi preso Amauri Dagnone,
um antigo militante que atuava na área sindical e tinha conhecimento do
comitê dirigente comunista da empresa. Ele não suportou as torturas e
entregou seus camaradas. O primeiro a cair foi o principal dirigente, o
próprio Bellentani, que começou a ser torturado dentro da própria
empresa. Como Bellentani não colaborava com os torturadores, apesar da
insistência de Amauri, que dizia que se ele não falasse a polícia o
mataria, o próprio Amauri foi levado ao interior da Volks e foi
apontando quem ele reconhecia como sendo do Partido. “Contando comigo,
foram sete prisões na Volks, Antônio Turini, Afonso Espanhol, Heinrich
Plage, Ane Marie, Geraldo e Rubens. A direção da base caiu. Mas eles não
abriram nada, tanto que a organização na empresa não caiu toda, nem a
organização no município.”
Essa organização só viria a ser desbaratada dois anos depois com a
ofensiva realizada contra o Partido na chamada Operação Radar em
1974/1975, quando a militância na região e praticamente toda a
militância nacional do Partido foi presa e quando também foi assassinado
na tortura um terço do Comitê Central, o principal dirigente da
Juventude Comunista, dois dirigentes do Comitê Militar, organizados na
Polícia Militar de São Paulo, e dirigentes estaduais, jornalistas e
operários como Wladimir Herzog e Manuel Fiel Filho.
Bellentani costuma contar um episódio que teria despertado a fúria não
só da Volks, mas também da polícia política contra o Partido Comunista
Brasileiro no interior da Volks. Foi exatamente no dia em que o então
ditador Garrastazu Médici encarregou o ministro da Indústria e Comércio,
Pratini de Morais, a representá-lo nas comemorações da fabricação de um
milhão de carros pela Volks. Para tanto, confeccionou uma medalha (a
Medalha do Fusca) para dar aos operários. Como o Comitê de Fábrica tinha
informações a partir de um de seus membros, que era da gerência, os
comunistas prepararam uma recepção especial dentro da Volks para as
autoridades. Eles confeccionaram 10 mil panfletos, introduziram
clandestinamente na empresa e, no dia do evento, os colocaram nas
esteiras da fábrica na hora da comemoração. Enquanto as autoridades
estavam comemorando, entre as quais o governador Abreu Sodré e o
prefeito Paulo Maluf, o panfleto denunciando os problemas que os
operários vinham sofrendo e a própria ditadura, corria pela esteira para
espanto e indignação dos presentes. Além disso, o Comitê Comunista fez
uma intensa campanha junto aos trabalhadores para que devolvessem as
medalhas.
“Grande parte das medalhas foram devolvidas nas bancadas das chefias.
Quando eu estava preso, os torturadores esfregaram na minha cara o
jornalzinho que distribuímos naquele dia”. Com as prisões dos dirigentes
operários do PCB no interior da Volks e, posteriormente, com o
desmantelamento e prisões dos outros militantes durante a Operação
Radar, o trabalho dos comunistas foi desbaratado na região do ABC, muito
embora em São Caetano, o dirigente do Comitê Central do PCB, José
Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula, tenha sido por três
vezes eleito para o Sindicato dos Metalúrgicos e em nenhuma conseguiu
assumir por determinação da ditadura. Com essa operação, a polícia
política conseguiu desmantelar todo o trabalho que o PCB tinha
desenvolvido na região.
O trabalho de organização do proletariado nas grandes empresas, com a
experiência acumulada no ABC, já tinha se espalhado para outras regiões
operárias do país. Uma das últimas experiências exitosas deste trabalho
foi a greve dos motoristas e cobradores de ônibus na cidade de São
Paulo, realizada em 1974, sob a direção do PCB, tendo à frente o
presidente do Sindicato, Alcides Bouno, militante do Partido. O PCB
tinha já organização de base na CMTC (Companhia Metropolitana dos
Transportes Coletivos, empresa pública municipal) e em empresas
privadas, além de dirigentes da Federação dos Transportes. Conforme
noticiado pela Voz Operária de junho de 1974, a greve ocorreu no dia
dois de maio de 1974 e paralisou parcialmente a cidade, atingindo cerca
de dois milhões de pessoas.
O movimento foi desencadeado em protesto contra o reajuste salarial
determinado pelo Tribunal Regional do Trabalho, considerado insuficiente
pelos trabalhadores. Para a Voz Operária, que noticiou o evento, o
movimento obteve uma das maiores repercussões naqueles anos e demonstrou
não só a insatisfação com a política salarial da ditadura, comprovando
que os trabalhadores e as trabalhadoras já não suportavam mais os
reajustes salariais abaixo da inflação, além de indicar a organização do
Partido junto aos motoristas e cobradores de ônibus. Além disso, o
jornal informou ainda que a população foi simpática ao movimento, porque
possivelmente já não confiava nas promessas das autoridades
governamentais. Como foi realizada essa greve na maior cidade do país,
em pleno regime de terror e ofensiva para liquidar o PCB? O articulista
anônimo da Voz Operária descreve com tantos detalhes a greve dos ônibus
na cidade de São Paulo, cujo relato demonstra que era testemunha ocular
ou participante dos fatos relatados pelo jornal.
“No dia 2 de maio a cidade foi parcialmente paralisada com uma greve de
motoristas e cobradores das empresas particulares. Esse movimento teve
profundas repercussões, pois milhares de operários não puderam ir ao
trabalho. A greve foi total nas seguintes empresas: ‘Alto do Pari’, 11
linhas; ‘Empresa Paulista de ônibus’, cinco linhas; ‘Viação Urbana
Penhas’, cinco linhas; ‘Empresa São Miguel’, dez linhas; ‘Cia.
Auxiliar’, nove linhas; ‘Viação Itaquera’, duas linhas; ‘Penha-São
Miguel’, 328 ônibus ficaram encostados na garagem. Segundo o sr. Paulo
Marinho, diretor da CMTC, a greve atingiu uma área de 360 quilômetros
quadrados, onde vivem dois milhões de pessoas”. Voz Operária prossegue
na descrição detalhada da greve: “Na madrugada do dia 2, principalmente
na Zona Leste de São Paulo, nos pontos de ônibus, as filas começaram a
se formar … As filas começaram a crescer às quatro e meia da manhã nas
ruas de São Miguel Paulista, Itaquera, Guaianazes e outros 20 bairros da
Zona Leste, onde cerca de um milhão de pessoas usa diariamente o sistema
de ônibus. No final da tarde, no Parque D. Pedro, onde se localiza o
ponto final da maioria dos ônibus da Zona Leste, a cavalaria da Polícia
Militar ocupou militarmente o local, a fim de impedir protestos populares”.
Um dos aspectos importantes desse movimento grevista foi o fato de que a
greve interferiu no processo de trabalho de várias empresas da capital,
na interrupção das aulas em colégios e faculdades e, especialmente, teve
o apoio da população que, mesmo sendo privada do transporte para ir ao
trabalho ou às aulas, compreendeu as razões dos trabalhadores e de suas
reivindicações, conforme relata Voz Operária: “Dezenas de viaturas
policiais foram mobilizadas para impedir o protesto dos passageiros.
Pelos cálculos da CMTC só na Zona Leste deixaram de circular 1.282
ônibus. Milhares de operários não puderam ir ao trabalho ou chegaram com
horas de atraso. Segundo um assessor da Federação das Indústrias (de São
Paulo, EC) o movimento grevista representou uma queda razoável na
produtividade de centenas de empresas. Milhares de estudantes também não
puderam ir às aulas. Fato muito significativo foi a reação da população:
poucas pessoas ficaram contra os motoristas e cobradores, porque a
grande maioria reconheceu que era justo, pois sabem que os rodoviários
ganham muito pouco, trabalham várias horas extras por dia em condições
duras”.
Diante da greve e da disposição dos trabalhadores de enfrentar os
patrões e a política de arrocho salarial, a ditadura procurou de todas
as formas desarticular o movimento, mediante a censura aos jornais, que
foram proibidos de noticiar a greve. A polícia política foi à casa
daqueles que considerava líderes da greve e prendeu dezenas de
motoristas. Diz Voz Operária: “Os jornais foram proibidos de dar uma
notícia verdadeira sobre o que houve. As televisões receberam ordem de
censura para nada dizerem. Mas a BBC de Londres, no mesmo dia, deu uma
informação sobre o movimento grevista … As autoridades tudo fizeram para
impedir o movimento. Desde a noite anterior, agentes do DOPS procuraram
os motoristas e cobradores em casa a fim de ameaçá-los e levá-los para o
trabalho. Todos os motoristas da polícia e da Prefeitura foram
mobilizados para conduzir os ônibus. Mas em muitos casos se perderam nas
ruas, pois a maioria não conhecia os itinerários dos ônibus. A polícia
também prendeu dezenas de motoristas que consideravam os cabeças da
greve”. Mesmo com toda repressão, essa greve histórica e relativamente
anônima para as novas gerações e ausente dos livros oficiais de
História, demonstrou que, mesmo nas mais dramáticas condições, a classe
trabalhadora tem capacidade de resistir e lutar por seus interesses.
É muito controverso especular sobre conjunturas que poderiam ter
acontecido. Os fatos da vida são reais e concretos e, por isso mesmo,
qualquer avaliação baseada naquilo que poderia ter acontecido é mesmo
mera especulação. Mas não se pode também deixar de avaliar elementos da
realidade que ocorreram na mesma conjuntura real e que contribuíram para
que determinadas forças políticas e sociais não pudessem ter tido
oportunidade de realizar todo o ciclo de atuação política. Trata-se de
uma intervenção brutal de um inimigo muito mais poderoso no processo
conjuntural, no caso específico, a ofensiva da ditadura para destruir o
PCB, e não um resultado do curso natural dos acontecimentos. Com certeza
a ditadura sabia perfeitamente quem era seu inimigo estratégico e, por
isso, buscou cortar pela raiz um trabalho de base que vinha sendo
construído com paciência e heroísmo por dedicados militantes comunistas.
Eles não queriam a emergência de um PCB enraizado na classe operária no
processo da chamada abertura lenta, segura e gradual.
Os vários documentos da inteligência militar que chegaram ao
conhecimento público indicam que ocorreu uma operação de Estado-Maior da
ditadura, numa cadeia hierárquica que envolvia desde o presidente da
República, os principais chefes militares e da inteligência, até os
esbirros que comandavam e praticavam a violência e os assassinatos nas
salas de tortura, com o objetivo de liquidar o PCB. Eles tinham pavor da
emergência de um PCB enraizado na classe operária no processo da chamada
abertura lenta, segura e gradual. Nessa ofensiva, a ditadura matou na
tortura os principais dirigentes do Comitê Central, vários dirigentes
estaduais e prendeu praticamente toda a militância do Partido no Brasil.
São raros os militantes comunistas daquele período que não foram presos.
Essa operação desarticulou o PCB por alguns anos, uma vez que seus
dirigentes estavam mortos, presos ou no exílio quando começaram as
movimentações operárias no ABC no início da segunda metade da década de 70.
Essa conjuntura, aliada aos erros do Comitê Central que voltou do
exílio, abriu espaço para que outras forças políticas emergissem na
conjuntura, quando os comunistas ainda estavam desarticulados e curando
as feridas provocadas pela repressão. Possivelmente a história do
movimento operário na região do ABC e no Brasil teria sido outra se a
ditadura não tivesse destruído o trabalho dos comunistas entre o
proletariado brasileiro. Mas a experiência realizada no ABC, que a
História ainda não tinha contado, pode ser considerada uma das mais
heróicas e belas páginas da resistência dos comunistas e da classe
operária na luta contra a ditadura brasileira.
Em
PCB
https://pcb.org.br/portal2/32872
29/5/2025
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